Galópolis – uma paisagem cultural com foco no patrimônio industrial

Desde sua fundação como Colônia, ainda em 1875, quando chegaram os primeiros imigrantes italianos, Caxias do Sul-RS, se destacou pelas atividades produtivas e se tornou um polo de referência em diferentes períodos históricos. Nos primeiros tempos, a cidade tornou-se centro de intensa produção agrícola, que aliada ao semi-isolamento geográfico, de então, forçou o advento da pequena indústria, assim diversificou atividades, desenvolvendo também o comércio, as pequenas oficinas e o artesanato. 

Um setor de destaque no período de 1875 a 1910 da história de Caxias do Sul, é o têxtil, representado pela Companhia Lanifício São Pedro, constituída em 1894 como uma cooperativa têxtil, a Cooperativa Têxtil Società Tevere e Novità,  formada por um grupo de imigrantes italianos, operários expulsos do Lanifício Rossi da cidade de Schio, província de Vicenza, e imigrantes que já moravam na localidade de Galópolis, na Colônia Caxias. Adquirida em 1904 por Hércules Galló, passou por diferentes momentos e administrações nos anos que seguiram, sendo hoje a Cootegal, uma cooperativa como nos primeiros tempos de sua constituição, criou uma relação intrínseca com a comunidade do bairro Galópolis até os dias atuais,

Galópolis, uma das regiões administrativas de Caxias do Sul-RS, está localizada na porção sul do município e divide-se entre as zonas rural e urbana, sendo que a zona urbana, fica às margens da BR-116. A história de Galópolis se constitui a partir da fábrica, o Lanifício São Pedro. Dessa forma, a pesquisa realizada durante a execução do projeto Na Trilha do Patrimônio Industrial – Galópolis, nos leva a conhecer uma paisagem cultural que foi se transformando a partir da indústria, um verdadeiro tesouro do patrimônio industrial.

A pesquisa histórico-documental sobre a região de Galópolis partiu da consulta de fontes bibliográficas, fotográficas, história oral, hemeroteca e documentos históricos. Como fontes bibliográficas destaco as produções das pesquisadoras: Vania Beatriz Merlotti Herédia com a obra “Processo de Industrialização da Zona Colonial Italiana” e Geovana Erlo com a dissertação “Museu de Território de Galópolis: uma estratégia para a preservação do patrimônio industrial e identidade local”, que contribuíram para a  construção da narrativa histórica de Galópolis, elemento base para a elaboração do roteiro das visitas mediadas aos patrimônios industriais e significativos de Galópolis.

Como testemunhos da história industrial de Galópolis foram elencados 11 patrimônios: Instituto Hércules Galló, Lanifício São Pedro atual Cootegal, Arroio Pinhal, Vinhos Pranzo, Vila Operária, Escola Ismael Chaves Barcellos, Círculo Operário, Cooperativa de Consumo, Moinho Galópolis S.A. (Roseflor), Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Fiação e Tecelagem do Distrito de Galópolis e o Hotel da Família Basso.

Por meio das entrevistas de história oral foi possível compreender as transformações na região de Galópolis, para além dos processos econômicos. A dinâmica social e suas relações estabelecidas dentro e fora da fábrica, aspectos também relevantes  para compreender a importância do patrimônio industrial. Possibilitar que os moradores de Galópolis participam do “Na Trilha do Patrimônio Industrial – Galópolis”, a partir das entrevistas, é uma forma de conscientizar a sociedade sobre a importância que cada indivíduo tem para a construção da História; desenvolve-se o senso de pertencimento e valorização do patrimônio, pois deixa de ser um patrimônio do outro para se transformar em patrimônio próprio pois: “o interesse e a dedicação do público pelo patrimônio industrial e a apreciação do seu valor constituem os meios mais seguros para assegurar a sua preservação” (Carta de Nizhny Tagil, 2003).

Outro aspecto que merece destaque durante a pesquisa foram as visitas técnicas, realizadas nos patrimônios, tornando-se uma pesquisa de campo, onde foram realizados registros fotográficos e, quando possível, uma conversa com os atuais proprietários. Alguns

prédios históricos foram revitalizados e continuam em uso, enquanto que em outras indústrias os vestígios encontram-se somente nos registros fotográficos da época. Esse momento possibilitou conhecer a história desses locais e a atual relação que eles estabelecem com a comunidade, sendo possível analisar as mudanças e permanências dessas relações. 

Dessa forma, a pesquisa realizada durante o projeto, teve como foco principal elencar a partir dos patrimônios industriais identificados, como a paisagem de Galópolis expõe as dinâmicas sociais, as relações da fábrica com o seu entorno, a transmissão de habilidades, as inovações tecnológicas e os modos de vida. Por meio dos testemunhos do patrimônio industrial se faz possível compreender as transformações ocorridas na sociedade. Independente do seu valor estético, as estruturas industriais podem nos transmitir informações diversas para o entendimento das relações da fábrica com o seu entorno. Sobre esse aspecto a pesquisa é a base para a realização das visitas mediadas, que tem como ponto central identificar o patrimônio industrial de Galópolis  a partir da apropriação e transformação do homem sobre a natureza. 

Assim, a região de Galópolis revela-se um  grande território educativo,  uma paisagem cultural, um meio natural ao qual o ser humano em sua vivência deixou registros de suas ações, sua forma de agir e de expressar. Nesse sentido, o patrimônio industrial está intimamente relacionado à essa paisagem cultural, pois pode ser entendido como um produto da apropriação e transformação do homem sobre a natureza. Paisagens que contém elementos industriais servem de documento, possibilitando a apreensão de aspectos importantes, pois agem como um testemunho e são referências, na medida em que explicam a cultura que lhe deu forma, expondo os símbolos, sua representatividade técnica e social.

O convite é para olhar Galópolis como um documento a ser lido e interpretado. E a leitura desse documento inicia com a constituição da Cooperativa Têxtil Società Tevere e Novità em 1894, assim como a incorporação de outras indústrias como os Vinhos Pranzo, e o Moinho Galópolis, além de outros elementos identificados como derivados do seu processo de industrialização.

 

Referências:

CARTA DE NIZH TAGIL sobre o patrimônio industrial. Revista Óculum Ensaios, Campinas: Puccamp, trad. Cristina Meneguello, 17 jul. 2003.

ERLO, Geovana. Museu de Território de Galópolis: uma estratégia para a preservação do patrimônio industrial e identidade local. 2019. Disponível em: Museu de Território de Galópolis : uma estratégia para a preservação do patrimônio industrial e identidade local

HERÉDIA, Vania Beatriz Merlotti. Processo de industrialização da zona colonial italiana. Caxias do Sul: EDUCS, 2017.

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